Disrupção tem que começar na TI

Capital Humano

Hoje todo o mundo corporativo quer respostas de curto prazo para desejos de longo prazo. É uma escolha pré-determinada pela opção mais rápida e mais barata ao invés da melhor solução no longo prazo. A desculpa que se evidencia é que as empresas nunca têm tempo e dinheiro para fazer certo da primeira vez, mas sempre arrumam tempo e dinheiro para refazer tudo de novo.

A cada 3 ou 4 anos irá surgir uma nova proposta de metodologia, de tecnologia do “como fazer”. Estas novas propostas são revisões contemporâneas de velhas propostas que tiveram alguma evidência de sucesso no passado. Partindo-se do princípio que a empresa sabe “o que fazer”, o mercado de consultoria atuará para propor alguma novidade de “o como fazer” com algum método inovador de economia ou controle. Quando o problema da nossa empresa são os erros: _ aparecem os consultores de controle; quando são os desperdícios: _aparecem os consultores de economia.

Na realidade você vai contratar os dois a cada ciclo temporal. Assim como já fez várias vezes, uma hora o desafio é parar de errar em seus negócios, outra hora é tentar diminuir despesas e repensar custos (economia). Na radicalidade deste ciclo está um problema de fundo muito desconhecido das empresas: A confusão entre novidade e inovação.

Inovação de verdade é uma mudança cultural, uma proposta de revisão de comportamentos, uma nova avaliação íntima e profunda de seu modelo de negócios. Neste contexto mudança significa: antes você funcionava de um jeito e agora funciona de outro diverso.

Novidade é adicionar novas características ao que já existe, novos controles e novos atalhos, o que embora pareça ser uma mudança, é na essência uma flexibilização de alguma coisa que já existe.

De fato, uma proposta de inovação tem forte apelo de mudança de cultura. Assim é a proposta da filosofia da disrupção.

Mudar a cultura é trabalhar o meio, antes do início e antes do fim

Quando o foco de atuação de uma consultoria é no início de um processo ou o fim, estamos diante de uma técnica de manipulação. Trabalha-se para forçar um comportamento, seja por pressão ou por medo. É como qualquer vício, o impulso não é para ficar autônomo, mas para descobrir a próxima técnica de forma mais rápida e mais frequentemente. Formamos assim um mercado de viciados em resultados de curto prazo!

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Não vou discutir se as manipulações funcionam. De fato, pode ajudar a influenciar comportamentos, porém estas técnicas não criam fidelidade. Com o passar do tempo, estas consultorias serão cada vez mais caras. Os ganhos que as empresas vão perceber serão apenas de curto prazo e em seguida teremos um aumento significativo de estresse para continuar manipulando as pessoas (pressão + pressão + pressão por metas).

A fidelidade de uma nova cultura nasce no cotidiano, na sustentação do negócio. O pessoal de marketing, de vendas, já é “pilhado” por natureza com metas e mais metas, a grande maioria anuais, e cada vez mais desafiadoras em comparação a meta imediatamente anterior. O time de marketing é o início, a equipe de vendas é o final do processo da existência de uma empresa, o meio é a TI.

Por estarmos tratando de cultura, de fidelização, essencialmente estamos falando de capital humano. Os sistemas informatizados podem contribuir, mas no “gênesis” de todo o problema somente um ser humano será o distinto, o diferencial, a identidade com o negócio.

Para ter um time disruptivo, uma equipe verdadeiramente de inovação, a exigência crítica de sucesso é ter “gente boa”. Profissionais apaixonados pelo que fazem, com auto-gestão, com automotivação, com vontade de escrever uma história de vida e deixar seu legado. Estas características de “soft skills”, tipicamente, são simples de serem encontradas em perfis comerciais ou de marketing. Parece que a autoestima destes profissionais é um requisito pré-vestibular. Na minha experiência atual, o raro é encontrar isso em técnicos de TI.

Os técnicos de TI são introspectivos, de certa forma muito concentrados em poucas aptidões humanas e inábeis para tantas outras. Os técnicos de TI preferem rotinas cotidianas ao invés de inovações. É uma forma mentis sistêmica, praticamente binária como critério de decisão. O talvez causa apreensão, a incerteza ativa o medo.

A TI como formalizador de cultura disruptiva

No início seu problema será no recrutamento & seleção. Contratar técnicos de TI com autoestima elevada, porém com excelentes habilidades de relacionamento. Se o profissional é “estrela” demais, ninguém conseguirá trabalhar ao lado dele e perderemos o conceito de time. Os técnicos de TI “estrelas” podem até se destacar pelo conhecimento avançado especifico, porém são arrogantes e insuportáveis na relação com seus pares (dentro e fora do departamento de TI).

Em seguida seu desafio será organizacional, de sair das escolas antigas de administração e colocar para funcionar estruturas horizontais. Quanto menos hierarquizado é o organograma funcional, mais próximo de um time participativo estaremos. Times participativos com “gente boa” é um ambiente estimulador de criatividade e inovação.

O próximo obstáculo será a manutenção da cultura. Não é simplesmente permitir o time de TI usar bermudas ou tomar cerveja no final do expediente. É aprender qual o valor de uma ideia, qual o valor de uma sugestão pontual, o quão importante é entregar o que foi combinado o mais rápido possível e aprender com isso. Na filosofia disruptiva, os departamentos não possuem fronteiras, todos podem contribuir em todos os aspectos do negócio da empresa. Deve haver uma reversibilidade completa: das áreas administrativas até a operação, da operação até o comercial e do comercial até a área administrativa.

A empresa inovadora é aquela que consegue manter viva uma cultura disruptiva. A cultura somente sobreviverá as técnicas de manipulação dos resultados de curto prazo para desejos de longo prazo se for internalizada no cotidiano, na sustentação do negócio. No meu ponto de vista, é no departamento de TI que esta proposta será fidelizada para depois influenciar toda a corporação. As mudanças devem ser pequenas, continuas, diárias, nos mínimos detalhes. É uma comunicação, é uma forma de entender o seu par e o negócio da empresa.

Após a compreensão desta leitura, desejo o sucesso em seus negócios.

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